INTERCIÊNCIA, UMA EXPERIÊNCIA DE DIPLOMACIA CIENTÍFICA NAS AMÉRICAS
Diplomacia é a arte e a prática de conduzir negociações entre nações. Os cientistas não são nações, mas em cada país constituem uma pequena e influente comunidade de pessoas com avançada formação dedicadas ao ensino e à pesquisa, com importantes vínculos internacionais, promovendo a fraternidade e a diplomacia. No que poderia ser a primeira tentativa não governamental para reunir as comunidades científicas das Américas, a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) uniu esforços com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Associação Venezuelana para o Avanço da Ciência (AsoVAC) para estabelecer em 1974 a Associação Interciência. As três instituições registraram a Associação na Venezuela em 1975 e no Chile em 2017.
Os países da América Latina têm sido atingidos pela Covid-19 de forma desproporcional. Até momento de escrever estas linhas, a proporção de casos notificados na região é mais que o dobro que sua proporção em relação à população mundial e as mortes alcançam 30%. A Associação Interciência tem promovido ativamente o intercâmbio de informação entre suas comunidades científicas. Emitiu uma declaração das associações membros de onze países da região convocando ações coordenadas com base na ciência e a tecnologia. Por sua vez, em seu editorial de março, a revista Interciência destacou os riscos de enfrentar uma das piores pragas conhecidas pela humanidade, o perigo da desinformação e a necessidade da ciência e não da política, de conduzir as soluções. Já em abril informou detalhes sobre um caso bem-sucedido de administração da pandemia, em Taiwan. Os fóruns virtuais organizados pela Associação relacionados com a situação da pandemia nos diferentes países latino-americanos contribuíram na divulgação da informação sobre acertos e erros em sua gestão. Então, o qué é a Associação Interciência?
Visionários de AAAS, AsoVAC e SBPC (Philip Abelson e Leonard Rieser, Salvatore Pluchino e Oscar Sala) definiram a missão da Associação Interciência como “unir as comunidades científicas das Américas e promover o uso da ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento regional”. Inicialmente as atividades se centraram em três objetivos: promover e facilitar o estabelecimento de associações para o avanço da ciência em países da América Latina e o Caribe; organizar reuniões para prover espaços de interação e intercâmbio entre cientistas; e publicar Interciência, una revista trilíngue dedicada a estimular a investigação científica, seu uso humanitário e o estudo de seu contexto social, especialmente na região, assim como também promover a comunicação entre as comunidades científicas e tecnológicas das Américas.
Numerosos simpósios sobre tópicos especializados têm sido organizados nos diferentes países membros pela Associação desde seu início, especialmente nas áreas de meio ambiente, ecologia, biodiversidade, etnobotânica, energia e política científica, como forma de promover intercâmbios científicos e cooperação na região. Esses eventos reúnem destacadas personalidades de suas áreas nos diferentes países, o que gerou diversos números especiais de Interciência.
A revista tem sido um meio de divulgação de resultados de pesquisas revisadas por duplas e de atividades científicas na região durante 45 anos ininterruptos, dos quais mais de 20 publicada em formato digital como revista de livre acesso. A maior parte do material é publicado em espanhol e português, chegando assim a audiências locais, e é abundantemente lida em todo o mundo.
Finalmente, a Associação tem concedido o Prêmio Interciência desde 2002. Sob os auspícios do Governo de Canadá, através da Associação Francófona para o Avanço da Ciência (ACFAS) e de Hydro-Quebec, o prêmio reconhece investigadores destacados em Ciências da Vida, Ecologia e Biodiversidade, e Energia. Em 2020 a Associação se uniu à Organização Ibero-americana para a Educação, Ciência e Cultura (OEI) e a Associação Argentina para o Progresso da Ciência (AAPC) para estabelecer o Prêmio Dr. Eduardo Charreau à Cooperação Científica e Tecnológica Regional. Também, a partir de 2021, concederá anualmente o Prêmio Leonard M. Rieser a Jovens Cientistas para reconhecê-los e apoiá-los na América Latina, patrocinado pelo Fundo Rieser para Interciência.